Entrevista: biopsicóloga e antropóloga Susan Andrews
03/10/11
“Do consumo à conservação, da apatia à compaixão, da alienação à celebração. Fazemos o futuro hoje”. Esse é o lema do Instituto Visão Futuro, fundado pela psicóloga e antropóloga Susan Andrews, que também coordena a ecovila Parque Ecológico Visão Futuro. Há tempo fascinada pelo conceito FIB (Felicidade Interna Bruta), decidiu implantar o projeto na ecovila do Instituto, já que oito das nove dimensões do FIB são os oito princípios norteadores das ecovilas através do mundo. Depois de participar da 3ª Conferência Internacional sobre FIB na Tailândia, em 2007, Susan foi convidada pelo movimento internacional para coordenar a disseminação do FIB no Brasil. Desde então o FIB vem sendo implantado em diversas prefeituras. Além disso o projeto Felicidade Interna Bruta foi introduzido pela Fundação Banco do Brasil no projeto Rio São Bartolomeu Vivo como forma de empoderar as comunidades das ações realizadas nas margens do rio.
Em entrevista à RTS, Susan Andrews comenta as experiências do Parque Ecologicio Visão do Futuro e apresenta algumas reflexões sobre o FIB.
RTS - Como surgiu o Instituto Visão Futuro?
Susan - O Instituto Visão Futuro surgiu com a intenção de manifestar na prática a visão mais abrangente que somos todos conectados náo só na família da humanidade, mas na família de toda a criação. Como diz o futurista Erwin Lazlo, o velho paradigma de Conquista, Consumo e Colonização está se auto-destruindo, e um novo paradigma está emergindo, de Conexão, Compreensão e Cooperação.
O Parque Ecológico Visão Futuro, uma “ecovila” situada no interior do estado de São Paulo, próximo da cidade de Porangaba, foi fundado com o apoio do governo de Suécia na época da Eco-92 com o objetivo de tornar-se um modelo de desenvolvimento rural integrado e sustentável. O Parque consistia, em seu início, de uma casa com sete cômodos, um barracão precário, um velho cobertor e uma única colher.
Durante os anos seguintes, com o apoio de incontáveis simpatizantes e de doações, e com o trabalho incansável de dezenas de voluntários de todas as partes do mundo, o sonho tornou-se realidade. O nosso lema é: “Do consumo à conservação, da apatia à compaixão, da alienação à celebração. Fazemos o futuro hoje”.
RTS - Quais são seus objetivos?
Susan - A proposta do Parque é estabelecer uma economia solidária e auto-suficiente, que possa prover as necessidades básicas – alimento, habitação, saúde, educação, remédios e cosméticos – aos seus integrantes. Nossa horta orgânica, padaria e doceria produzem boa parte dos alimentos consumidos pelos moradores, e seu excedente é vendido ao público em geral.
O Centro de Ayurveda – a ciência milenar de saúde integral - oferece tratamentos para os moradores e ao público em geral, e o laboratório fitoterápico, anexo a uma horta de plantas medicinais, produz medicamentos e cosméticos ayurvédicos que ajudam na manutenção da saúde e do bem-estar dos moradores. Na Creche CreSer, as crianças locais não apenas aprendem a ler, escrever e contar, mas desenvolvem auto-motivação, dignidade, valores éticos, criatividade e uma atitude de amor para com todos os seres.
Uma micro-destilaria de álcool faz parte da nossa meta de “Soberania Alimentar e Energética”. A cana de açúcar não é cultivada de forma intensiva e extensiva, mas sim consorciada com feijão, girassol e mandioca. Com isso, além de produzirmos a energia renovável que abastece os nossos veículos, produzimos alimentos para os moradores e para o bairro no nosso entorno.
Talvez, um dos mais importantes projetos do Instituto sejam os cursos ministrados no Parque, especialmente o Curso de Biopsicologia que promove o desenvolvimento integral do ser humano, nos planos físico, mental e espiritual, com uma abordagem científica da medicina corpo-mente.
RTS - Quais são os outros projetos desenvolvidos pelo Instituto?
Susan - O Projeto Educoração, que é biopsicologia na prática para crianças, inclui o que se chama de “Alfabetização Emocional” e “Alfabetização Ecológica”: uma abordagem educacional cuja essência é despertar nas crianças a empatia pela vida como um todo. Essa abordagem – que transforma não somente os professores mas também a sala de aula - está sendo espalhada pelo Brasil inteiro através da capacitação de professores, em parceria com governos estaduais e municipais.
O Programa Transforma é um conjunto de estratégias para introduzir mudanças mais eficientes e conscientes nas organizações, aplicado especialmente nas empresas para gerar uma nova cultura de sinergia entre o indivíduo, a equipe, a instituição e a comunidade - mudanças profundas, baseadas em valores éticos, transformando os participantes por meio do crescimento interior.
O Programa de Saúde Integral aplica os princípios e tratamentos de ayurveda na saúde pública, incluindo módulos de prevenção de doença, orientações sobre alimentação e estilo de vida, psicologia positiva e terapia em grupo. Essa abordagem holística não somente alivia os sofrimentos mental e físico, mas também resgata a auto-estima dos participantes e sua convivência harmoniosa na sociedade.
Nossos programas de educação ambiental para crianças e jovens acontecem regularmente no Parque. Atualmente, estamos preparando vários “Festivais de Água” nas cidades circunvizinhas, com o patrocínio da FEHIDRO.
Acreditamos também muito no poder da arte, do modo que todos nossos cursos envolvem muita música, dança e teatro. O grupo de artistas do Parque, com o patrocínio da empresa 3M, está apresentando um espetáculo “Casa da Vovó Ofélia” em dezenas de escolas na região de Campinas, para mobilizar uma nova visão nas crianças de ajuda mútua e paz interior.
RTS - Quais são as Tecnologias Sociais existentes no Parque Ecológico em Porangaba?
Susan - As instalações ecológicas – cata-ventos, aquecimento solar, tratamento biológico da água de esgoto, reciclagem de água, agricultura orgânica e compostagem – são compartilhadas com o público em geral em programas públicos, desde um programa chamado “Domingo no Parque” até um curso de pós-graduação em sustentabilidade.
A economia solidária e geração de emprego no meio rural – na horta, padaria, doceria, laboratório, cozinha etc. - proporciona uma vida digna para os moradores do bairro que trabalham no Parque. Todos os projetos do Instituto acima mencionados - em educação, saúde e arte - visam uma profunda transformação social, em vários campos da vida.
RTS - Dentre as ações, o Instituto está trabalhando com a proposta de Felicidade Interna Bruta (FIB). No que consiste?
Susan - O Indicador FIB, Felicidade Interna Bruta, foi criado no Butão como um novo paradigma de indicador sistêmico de progresso e mensuração da verdadeira riqueza de uma comunidade. Como apoio do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), pesquidores internacionais desenvolveram um indicador universalmente aplicável para fornecer de maneira participativa, dados mais amplos e mais acessíveis ao público e também mais relevantes para a formulação de políticas públicas. Com enfoque qualitativo, esse indicador gera discussões públicas, pró-atividade e protagonismo por parte da população.
São nove as dimensões do FIB: bom padrão de vida econômica, boa governança, educação de qualidade, boa saúde, vitalidade comunitária, proteção ambiental, acesso à cultura, gestão equilibrada do tempo e bem estar psicológico.
Atualmente, esses indicadores estão sendo implementados não somente no Butão, mas também em outros países do mundo, tais como Inglaterra, EUA, Tailândia e Canadá, bem como em cidades no Brasil, incluindo São Paulo, Campinas, Itapetininga etc.
RTS - Como ocorre, na prática, a implantação do FIB?
Susan - O objetivo do FIB é o de mobilizar a cidadania (adultos, jovens e crianças) em prol do bem-estar coletivo nas nove dimensões do Indicador FIB. Isso é feito através da coleta de dados a partir do questionário FIB ministrado pelos jovens do bairro, seguido de uma série de reuniões na comunidade para incentivar o protagonismo da população na busca contínua da felicidade individual e comunitária.
Uma nova abordagem de “Educação para Felicidade” é introduzida nas instituições de ensino locais, com a finalidade de promover valores positivos nas crianças e nos jovens, de uma forma lúdica e duradoura, e também para proporcionar seu desenvolvimento integral através de técnicas de harmonização corpo-mente. A plena expressão do potencial de liderança é estimulada nas crianças - tornando-as “Agentes de Alegria” que inspiram e motivam os adultos - e nos jovens que atuam como dinâmicos parceiros dos adultos no movimento a favor do bem-estar coletivo e do desenvolvimento sustentável local.
RTS - O que deve fazer uma instituição ou pessoa interessada em reaplicar o FIB?
Susan - Entrar em contato conosco através do site www.felicidadeinternabruta.org.br. Logo quando o questionário FIB estiver validado, começaremos a disponibilizar essa tecnologia social para os grupos interessados de todo Brasil.
RTS - A humanidade e o planeta Terra estão passando por um momento decisivo em vários aspectos: ambientais, sociais, econômicos e políticos. Qual o papel do Brasil nesse contexto?
Susan - Estamos num período de extraordinário perigo. No passado, a sociedade humana enfrentou várias crises em diferentes aspectos da civilização - psicológico, social, político, econômico e ecológico. Mas, atualmente, estamos nos defrontando com crises em todas essas áreas simultaneamente. Estudei com um grande mestre na Índia que nos ensinou que a aurora de uma nova civilização gloriosa está de um lado, e o desgastado esqueleto do passado no outro. Chegou a hora de abraçarmos essa aurora radiante.
Desde cheguei ao Brasil, há 20 anos, senti intuitivamente que este país tinha, e tem, um papel especial de iluminar o caminho rumo a essa nova civilização - ao futuro que todo ser humano almeja. E a cada ano que passa, tenho mais certeza disso.
Embora viva numa comunidade auto-sustentável que ela própria fundou em Porangaba, no interior paulista, sua vida está longe de ser uma moleza. Além de coordenar as atividades da ecovila, onde vivem 18 moradores e trabalham 40 funcionários, ela dá 200 cursos e palestras por ano. Susan, que se mudou para o Brasil às vésperas da Eco 92, já transmitiu seus ensinamentos a executivos de empresas como Petrobrás, BNDES, Natura e 3M. Psicóloga e antropóloga pela Universidade Harvard, ela desenvolveu uma série de técnicas para aliviar a tensão e controlar os efeitos dos hormônios produzidos durante situações de desgaste psicológico, prejudiciais ao organismo. Ela costuma dizer que, para ser submetido ao estresse, basta estar vivo. Mas, ao contrário do que prega o senso comum, ele pode aumentar a produtividade e reforçar o sistema imune.
Últimas notícias
- Presidente da Fundação BB participa de audiências com ministras do MDS e MPA
- Professor Ignay Sachs visita Fundação Banco do Brasil
- Fundação BB realiza Seminário de Educação de Jovens e Adultos em Esperantina/PI
- Fundação BB participa da X Cúpula Social do Mercosul
- Fundação BB inaugura Casas do Beiju mais notícias...






