Entrevista: Jorge Streit, presidente da Fundação BB
29/07/11
NÃO VAMOS REINVENTAR A RODA
1) Você acaba de ser reconduzido ao cargo de presidente. Quais iniciativas serão priorizadas no seu novo mandato?
Eu já estava ocupando a presidência da Fundação Banco do Brasil de 2010 a 2011, mas ainda exercia um mandado complementar ao mandato do ex presidente Jacques Pena. Jacques deixou a presidência da FBB na metade do seu quarto mandato e eu concluí aqueles dois anos. Em junho de 2011, fui eleito para o período 2011/2013. Na prática, o que vamos fazer é dar continuidade ao planejamento trienal válido para 2010/2012. Particularmente, tive uma participação importante na elaboração desse planejamento, porque na época era diretor de Desenvolvimento Social da Fundação. Então, não há muito o quê mudar, não vamos reinventar a roda a partir dessa minha eleição para esse novo mandato. Vamos seguir na mesma linha.
O que tem de diferente é que vamos enfatizar, por exemplo, a atuação na Região Norte. É uma região onde precisamos investir mais. Nos últimos oito anos, a FBB conseguiu equilibrar o seu balanço de investimentos de forma a priorizar a Região Nordeste, mas a Região Norte tem ficado com um percentual de investimentos abaixo do que poderia ter. Essa é uma prioridade nossa, recentemente estivemos no II Encontro de Jornalistas do Norte (maio 2011, em Porto Velho/ RO) e reforçamos essa ideia. Esse direcionamento diz respeito também ao alinhamento que estamos fazendo com o Plano Brasil Sem Miséria do Governo Federal. A maior parte de nossas ações e programas, de uma forma ou de outra, já atendem aos públicos priorizados pelo Plano. Agora, ampliando o foco de nossa intervenção à Região Norte, aumenta ainda mais a nossa interação com as políticas públicas federais.
Estamos em busca de parcerias que nos ajudem a colocar em prática essa vontade. Neste momento estamos tentando junto ao BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico) acessar recursos do Fundo da Amazônia - o que nos daria condições mais estruturadas para atuar na região. Estamos também formatando uma parceira com o Ministério da Pesca, uma vez que a piscicultura é uma atividade importante na região amazônica como um todo. Enfim, estamos com uma série de iniciativas que vão nos fazer ampliar o volume dos nossos investimentos sociais na região e temos interesse nessa ampliação.
Temos tido um trabalho bastante intenso nos últimos meses na busca de recursos de terceiros, dessa maneira, podemos abranger nossa atuação e executar ainda mais ações. Neste sentido, estamos cada vez mais nos aproximando do BNDES. Continuamos a executar o convênio com o Fundo Social do BNDES, mas estamos entabulando outras conversas no sentido de que outros recursos, de outros fundos, sejam executados pela Fundação. Do ponto de vista da execução de recursos de terceiros, o BNDES e a Petrobras são duas instituições com as quais nós temos aprofundado bastante essas conversações e acreditamos que vamos ter decisões importantes para anunciar nos próximos meses, a partir dessas articulações.
Faz parte de nosso trabalho, inclusive, prospectar e alavancar recursos, de origens diversas, para ampliarmos o orçamento que o Banco do Brasil, nosso instituidor e principal fonte para nossos investimentos sociais, nos repassa. Vamos continuar trabalhando nisso nos próximos períodos.
2) Quais outras novidades previstas para sua gestão?
A Fundação acaba de receber a incumbência de fundir e integrar o Programa de Inclusão Digital do Banco do Brasil (PIDBB) com o nosso Programa de Inclusão Digital, que implementa as “estações digitais”. É um desafio para a FBB fazer com que esses dois programas se integrem, fazer com que tenham um formato único, que as estações todas sejam revisadas - do ponto de vista do leiaute, da metodologia - e capacitar os educadores sociais de todas as estações digitais e dos “telecentros BB” do país. Então, temos um grande desafio, mas ao mesmo tempo temos também a expertise. Criamos uma gerência específica (Gerência de Educação e Tecnologia Inclusiva – Edtec) e estamos recebendo recursos orçamentários para dar conta da unificação desses dois programas.
Outro aspecto a ser destacado é o alinhamento da nossa estratégia com as ações do nosso instituidor, o BB, em temas ligados à sustentabilidade, intensificando nossa participação em iniciativas da estratégia de Desenvolvimento Regional Sustentável, voltadas para geração de trabalho e renda e reaplicação de tecnologias sociais. Um bom exemplo é o projeto Balde Cheio, finalista do Prêmio Fundação Banco do Brasil de Tecnologia Social 2009. Entre os objetivos do Balde Cheio está aumentar, em quatro anos, a produtividade de pequenas propriedades. A parceria entre DRS/BB e Fundação BB está assegurando que unidades do Projeto sejam replicadas.
Temos, ainda, o trabalho com as tecnologias sociais, que continua muito forte. No dia 22 de julho encerramos as inscrições para Prêmio Fundação Banco do Brasil de Tecnologia Social com mais de mil inscrições: 1116, para ser exato. Realmente uma quantidade de inscrições impressionante, batemos recorde de inscrições em relação às edições anteriores. Para ser ter uma idéia, na última edição 695 iniciativas sociais inscreveram-se no Prêmio - um número de inscrições que já era considerado muito bom. Em 2011, estamos comemorando um incremento de 60%, em relação à 2009, no número de organizações interessadas em concorrer à premiação.
Acreditamos que o Prêmio, esse ano, vai impactar muito todo o segmento que tem acompanhado a discussão sobre tecnologias sociais no Brasil e, até mesmo, fora do país. Pretendemos continuar com as tecnologias sociais ocupando uma parte importante da nossa estratégia, continuar com as tecnologias sociais como o grande orientador da atuação da FBB. Principalmente neste ano – que, como todos os anos ímpares, é muito importante para nós, já que é o ano no qual acontece o Prêmio Fundação Banco do Brasil de Tecnologia Social - queremos dar ênfase neste tema, inclusive, a partir de agora, estamos usando uma frase forte junto a nossa marca institucional: “Tecnologia Social para superar a pobreza”.
3) Com o trabalho desenvolvido, a Fundação está conquistando visibilidade internacional. Há planos de parcerias com outros países ou instituições estrangeiras?
Aumentar a presença e a atuação da Fundação nos fóruns internacionais é outra questão que estamos trabalhando fortemente. Isso por várias razões. Somos cada vez mais demandados no sentido de socializar a experiência que desenvolvemos no Brasil, sobretudo com tecnologias sociais, com outros países; somos convidados para intercâmbios, recebemos aqui na Fundação delegações de vários países, principalmente africanos. É um desafio do Governo Federal e de todas as instituições públicas. Como nosso instituidor é o Banco do Brasil, temos um forte compromisso com as políticas de Governo e também somos chamados a atender esse desafio.
Junto ao continente africano, queremos estabelecer algum tipo de cooperação. Não uma cooperação para investir recursos fora do país, pois isso não podemos fazer - por uma série de razões inclusive impedimento estatutário. Falo no sentido da cooperação técnica, no sentido da troca de experiências. Para nós, são prioritários os países africanos e principalmente os países de língua portuguesa – inclusive, recentemente recebemos aqui na Fundação delegações de Angola e Moçambique.
Queremos cooperar, também, com os países que fazem fronteira com o Brasil. Estivemos na Cúpula Social do Mercosul e, a partir desse encontro, foi possível encaminhar uma série de questões relativas à região. Estamos construindo um Centro de Referência Tecnologia Social em Foz do Iguaçu - para que o tema “tecnologias sociais” se irradie em países como Paraguai, Uruguai, Argentina - que se mostram receptivos à essa discussão. Estamos articulando parcerias importantes neste sentido. O Ministério da Integração Nacional aprovou uma série de medidas para ações nas regiões de fronteira. Então é possível que, nos próximos anos, a FBB tenha uma atuação nessas regiões fronteiriças, que apresentam graves questões sociais, muitas vezes por falta do investimento.
Neste sentido, estamos, ainda, estreitando relacionamento com o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) porque queremos estabelecer parcerias técnicas com países de todo o continente. Como temos impedimentos para investir do lado de lá da fronteira, nosso investimento sempre será feito no lado de cá, combinando com o BID, para a realização dos investimentos nos países fronteiriços. Realizamos uma série de conversações e estamos estreitando relacionamento com parceiros canadenses e franceses, no sentido da internalização de recursos, não apenas financeiros, mas conhecimentos e aprendizados que se têm nesses países e que podem ser interessantes para o desenvolvimento e modelagem de programas e projetos no Brasil.
Além disso, tem o fato do Banco do Brasil, nosso instituidor, estar inserido em uma estratégia de internacionalização muito forte, com a compra de bancos na Argentina e nos Estados Unidos, além de estar buscando consolidar uma atuação na África. Temos que estar preparados para acompanhar e nos alinharmos a esses debates que estão acontecendo no BB. Internamente, um grupo de trabalho está produzindo um documento que deverá balizar a atuação da Fundação nos próximos anos, a ser apresentado ao Conselho Curador.
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